Existem histórias que nascem para serem contadas. Outras nascem apenas porque o silêncio já não consegue suportá-las. Este livro talvez pertença aos dois lugares.
Durante muito tempo, pensei que escrever sobre minha mãe seria impossível. Não porque faltassem lembranças, mas justamente pelo excesso delas. Algumas memórias aquecem. Outras machucam. Muitas fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E é essa mistura permanente de amor, dor, culpa, proteção, distância e reencontro.
Minha mãe nunca foi uma mulher simples. Não cabe em definições fáceis. Não cabe na imagem idealizada da maternidade que tantas vezes aprendemos a repetir. Ela foi forte e frágil. Violenta e amorosa. Generosa e cruel. Capaz de proteger com a mesma intensidade com que também machucava.
Durante muitos anos, tentei compreender quem ela realmente era. Hoje percebo que talvez ninguém consiga resumir completamente uma vida marcada por tantas feridas.
Este livro não foi escrito para julgá-la. Também não foi escrito para absolvê-la. Foi escrito para lembrar. Porque existe algo profundamente doloroso em assistir alguém desaparecer aos poucos sem sair fisicamente do mundo. A demência faz isso. Ela não leva apenas a memória de quem adoece. Ela desorganiza também a memória de quem permanece ao lado, tentando salvar fragmentos antes que tudo se apague.
Enquanto ela esquece nomes, rostos, datas e caminhos, eu escrevo. Escrevo porque tenho medo do esquecimento. Porque algumas histórias merecem permanecer vivas.
| Número de páginas | 206 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Offset 80g |
| Idioma | Português |
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