Eu não comecei esta obra para alcançar o céu.
Comecei para não desaparecer.
Havia em mim um desejo antigo e silencioso de permanecer, de deixar marca, de ser reconhecido — ainda que espiritualmente. Não era Deus quem eu buscava tocar, mas a sensação de estar acima. Acima da dúvida, acima do erro, acima dos outros, acima de mim mesmo. E, para isso, comecei a construir.
Toda torre começa assim: com uma boa justificativa.
Chamam-se de progresso, de iluminação, de crescimento, de conhecimento. Mas no fundo, o nome verdadeiro sempre foi o mesmo: ego. Um ego que não suporta a dispersão, o anonimato, o retorno ao pó. Um ego que teme ser espalhado pela terra, confundido com o comum, dissolvido no silêncio.
Babel não foi um erro arquitetônico.
Foi um estado mental.
Uma planície onde todos pensam igual, desejam igual, falam a mesma linguagem interior. Uma unidade sem consciência. Um acordo tácito de que subir é melhor do que descer, e que profundidade pode ser substituída por altura.
Eu também fiz meus tijolos.
Endureci ideias, solidifiquei crenças, empilhei conceitos. Usei o betume da vaidade para colar tudo: títulos, certezas, discursos, até mesmo Deus. Dei nomes nobres às minhas intenções, porque o ego nunca se apresenta como ego — ele sempre vem disfarçado de virtude.
E quanto mais a torre crescia, mais distante eu ficava de mim.
A torre prometia o céu, mas me afastava da essência. Prometia visão, mas produzia cegueira. Prometia unidade, mas exigia uniformidade. Não havia e
| Número de páginas | 67 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Offset 90g |
| Idioma | Português |
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