Uma vida tecida entre raízes, trabalho, cultura e artesanato. Minha história começa na simplicidade do sertão, onde aprendi desde cedo que a vida pode ser difícil, mas também pode ser cheia de ensinamentos, memórias e riquezas que não cabem em dinheiro. Quando eu era pequena, por volta dos três anos de idade, tenho lembranças muito vivas das visitas à casa da minha avó. Era um tempo diferente de hoje. Não havia energia elétrica, celular ou televisão. A noite chegava trazendo o silêncio do sertão e, junto dele, as histórias contadas pela família. Eu me lembro de nós todos reunidos, deitados no chão, porque não havia camas para todos. E minha tia contava as histórias de Trancoso, enquanto nós escutávamos atentos, deixando a imaginação viajar. Eram momentos simples, mas que ficaram guardados dentro de mim e ajudaram a construir quem sou. Foi nesse ambiente de família, trabalho e tradição que fui crescendo. Aos sete anos, comecei a me aproximar ainda mais do artesanato e da agricultura. Aprendi com minha mãe, minhas tias, meu pai e toda a minha família os conhecimentos que eram passados de geração em geração. Também tive contato com as culturas e tradições dos encantados, ligadas às raízes indígenas da minha família. O artesanato entrou na minha vida não apenas como uma forma de fazer objetos com as mãos, mas como uma maneira de preservar histórias, conhecimentos e identidade.
A agricultura também passou a fazer parte da minha caminhada. Aprendi a valorizar a terra, plantar, colher e compreender que aquilo que nasce do chão carrega o trabalho e a esperança de quem cultiva. Minha vida, porém, nunca ficou parada em um único caminho. Ao longo dos anos, tive diversas oportunidades e experimentei diferentes profissões. Já fiz bolos e salgados para vender, fui revendedora de diferentes marcas, dei aulas no lugar de outras professoras e busquei conhecimento sempre que surgia uma oportunidade na cidade. Também fiz o curso de Pedagogia e participei de diversos outros cursos que apareceram durante minha caminhada. Cada experiência me ensinou alguma coisa. Algumas abriram portas, outras trouxeram desafios, mas todas contribuíram para a mulher que me tornei. Hoje, olhando para trás, percebo que cada pedaço da minha trajetória está ligado ao outro. A menina que dormia no chão da casa da avó ouvindo histórias de Trancoso tornou-se uma mulher que carrega histórias nas mãos. A criança que aprendeu a trabalhar com a família tornou-se agricultora. A menina que conheceu o artesanato desde os sete anos tornou-se artesã. E a mulher que buscou diferentes conhecimentos encontrou nas próprias raízes uma parte importante de sua identidade. Hoje me identifico como agricultora e artesã, mas, acima de tudo, como uma mulher que valoriza suas raízes culturais, sua família, a terra, os conhecimentos ancestrais e a força do trabalho manual. Meu artesanato não é apenas aquilo que minhas mãos produzem. Ele carrega memória. Carrega a infância. Carrega minha família. Carrega a cultura do meu povo. Carrega a terra onde cresci. Cada peça que faço é também uma maneira de contar um pouco da minha história e manter viva uma tradição que aprendi ainda criança. Minha vida foi construída assim: entre a terra e as mãos, entre o trabalho e a aprendizagem, entre as histórias da minha avó e os ensinamentos da minha família. E hoje continuo caminhando, aprendendo e criando, levando comigo aquilo que o tempo não conseguiu apagar: minhas raízes. Porque posso aprender novas profissões, conhecer novos caminhos e experimentar diferentes trabalhos, mas existe algo que permanece dentro de mim. Sou filha da terra, aprendiz da vida, agricultora por essência e artesã por herança e paixão. Minha história ainda está sendo escrita. E enquanto minhas mãos tiverem força para criar, continuarei transformando fios, tecidos, sementes, fibras e memórias em arte. Porque, para mim, artesanato não é apenas fazer com as mãos.
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