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Deivison Melo Neubert

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Sobre o autor

Estou numa fase de reconstrução e de projeto de futuro, mas uma coisa para mim é muito clara: não quero simplesmente seguir em frente. Quero transformar o que vivi em alguma coisa que permaneça.

Hoje, uma parte enorme disso passa pela escrita. Estou construindo um universo literário grande, formado por histórias que se cruzam, personagens que reaparecem, lugares que guardam memória e acontecimentos que continuam produzindo consequências muito depois de parecerem encerrados. Não penso meus livros como histórias completamente isoladas. Gosto da ideia de que sejam partes de um mesmo mundo, ligados por personagens, objetos, frases, silêncios e acontecimentos que atravessam o tempo.

Como autor, sou extremamente atento à continuidade, à coerência emocional e, principalmente, à identidade do que escrevo. Não gosto de textos que pareçam artificialmente literários, nem de frases excessivamente curtas que criem aquela sensação de gagueira. Prefiro uma escrita fluida, densa quando precisa ser densa, emocional sem precisar ser melodramática e, acima de tudo, que confie no leitor. Se uma cena já mostrou alguma coisa, geralmente não quero um parágrafo depois explicando aquilo novamente. Muitas vezes, para mim, um gesto vale mais do que toda a explicação que poderia vir depois dele.

Também penso a literatura de forma muito visual. Não vejo um livro apenas como palavras impressas. Penso na disposição dessas palavras na página, nos espaços vazios, no silêncio, nas imagens, nos desenhos, nos objetos gráficos, nos labirintos, nas letras que podem cair ou desaparecer. Existe uma estética que fui construindo e que acabou se tornando muito minha: preto e branco, lápis, grafite, carvão, imperfeições manuais, marcas humanas e, às vezes, um único elemento de cor atravessando tudo.

Reviso muito. Mas não reviso apenas para encontrar uma palavra melhor ou corrigir uma frase. Muitas vezes, reviso porque estou tentando descobrir o que aquela história realmente quer dizer. Posso escrever várias versões de uma mesma cena, colocar todas lado a lado, perceber que uma tem a atmosfera certa, outra tem o melhor diálogo, outra chegou mais perto do personagem, e então tentar construir uma versão que preserve aquilo que realmente importa. O texto simplesmente “bom” nem sempre me satisfaz. Procuro aquele momento em que ritmo, personagem, estrutura e emoção parecem finalmente ocupar o lugar certo.

Talvez por isso eu tenha tanto interesse pelo que as pessoas escondem. Relações mal resolvidas, culpa, desejo, amizade, abandono, violência, memória, segredos, versões contraditórias do passado e, sobretudo, aquilo que alguém não teve coragem de dizer aparecem constantemente no que escrevo.

O livro **O Que Não Foi Dito Também Aconteceu** nasceu muito desse território.

O título, para mim, ultrapassa o próprio livro. Existe ali uma ideia que atravessa boa parte do que escrevo e até da maneira como observo as pessoas: o silêncio não apaga um acontecimento. Aquilo que não foi confessado, discutido, pedido, respondido ou confrontado continua tendo existido. Às vezes, o que ninguém disse é justamente o que mais alterou uma história.

Também não gosto muito da ideia de transformar meus personagens em santos ou monstros absolutos. Interessa-me mais a contradição. Pessoas podem amar e machucar. Podem proteger alguém e, ainda assim, falhar terrivelmente com essa mesma pessoa. Podem ser generosas num dia e mesquinhas no seguinte. Podem sobreviver a alguma coisa sem necessariamente se tornarem melhores por causa disso. Acho mais interessante observar seres humanos do que distribuir inocência e culpa como se todo mundo coubesse confortavelmente em uma dessas duas categorias.

Apesar de escrever sobre assuntos pesados, também preciso do humor. A vida raramente respeita o gênero literário da cena. Mesmo no meio de uma tragédia pode surgir uma frase absurda, um comentário inconveniente, uma resposta atravessada, um cachorro interrompendo alguma coisa importante ou alguém fazendo drama por um motivo completamente idiota. Gosto disso porque impede que a dor se transforme em pose. As pessoas continuam sendo ridículas, engraçadas e contraditórias mesmo quando estão sofrendo.

No fundo, acho que minha escrita gira em torno de uma pergunta que ainda não consegui responder completamente:

**o que fazemos com todas as versões de nós mesmos depois que sobrevivemos a elas?**

Talvez eu esteja tentando responder isso escrevendo.

Digo que estou buscando um futuro, e isso ainda é verdade. Mas talvez essa busca já tenha começado há algum tempo. Estou pegando passado, memória, imaginação, pessoas, perdas, possibilidades, coisas que aconteceram e coisas que poderiam ter acontecido, e transformando tudo isso em histórias.

Talvez seja essa a minha maneira de continuar.

Não apagar o que passou.

Não viver preso a isso.

Mas dar a tudo uma forma antes de seguir.
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