Eu escrevo desde pequena.
Talvez porque, desde muito cedo, a minha criatividade nunca tenha cabido
direito dentro da minha cabeça — e muito menos naquilo que eu conseguia
expressar pelas minhas ações. Sempre havia alguma coisa a mais. Uma história
que continuava depois que todo mundo já tinha ido embora. Uma pergunta
escondida atrás de outra pergunta. Um pensamento que nascia de algo
absolutamente banal e, de repente, virava uma reflexão gigantesca sobre a vida.
A escrita nasceu nesse lugar. Como uma saída. Como um território. Como
uma forma de transformar em palavras aquilo que, de outro jeito, continuaria
fazendo barulho dentro de mim.
Sempre me senti diferente e, ao mesmo tempo, muito igual. Passei boa parte
da vida tentando compreender qual era o meu lugar no mundo. Ainda tento.
Questiono minhas escolhas, meus desejos, as relações, o amor, a liberdade,
quem somos quando ninguém está olhando e quem nos tornamos para
corresponder ao olhar dos outros.
E eu adoro isso.
Pensar sobre a coisa mais simples, boba ou abstrata da existência me dá um
prazer imenso. Uma conversa, uma música, uma estrada, uma lua bonita no céu,
alguém indo embora, alguém chegando, um silêncio estranho, um desejo que
não sabemos explicar — tudo pode virar história. Talvez porque eu nunca tenha
acreditado muito em vidas vividas dentro de caixas.
Acredito na liberdade.
Acredito em espíritos livres.
Acredito profundamente no direito de cada pessoa escolher como quer viver,
amar, existir e construir a própria história — desde que essa liberdade não
destrua a liberdade do outro.
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Não gosto de julgamentos fáceis. Não acredito que pessoas caibam
perfeitamente em classificações entre certas e erradas, boas e ruins. Ainda
acredito no bem e na boa intenção do ser humano, mesmo sabendo que nem
todos são bons.
Isso provavelmente diz bastante sobre mim.
Tenho trinta e cinco anos e ainda acumulo sonhos como quem coleciona
lugares num mapa que pretende visitar algum dia.
Quero um motorhome. Quero conhecer o mundo com meus cachorros.
Quero uma moto, uma jaqueta de couro, uma estrada bonita e música alta —
qualquer música, desde que consiga tocar o meu corpo. Quero ter um café
solidário que ajude cães abandonados. Quero uma pousada no Nordeste. Quero
conhecer lugares que ainda nem sei pronunciar. Quero continuar começando
coisas novas mesmo quando disserem que já passei da idade de começar.
E agora existe mais um sonho nessa lista: escrever.
Ou, dizendo com mais precisão: finalmente permitir que aquilo que sempre
existiu dentro de mim encontre uma forma de existir fora.
Curiosamente, este livro nem deveria existir. Pelo menos não no começo. Eu
estava criando um site quando uma amiga, a Dayse, plantou uma ideia:
— Por que você não transforma isso em um livro?
Algumas frases mudam rotas inteiras sem fazer barulho. Aquela foi uma
delas. Então: obrigada, Dayse. Selenya talvez continuasse existindo apenas em
arquivos, imagens, pensamentos e fragmentos espalhados se você não tivesse
enxergado um livro antes mesmo de eu enxergá-lo.
Selenya nasceu como um alter ego, mas rapidamente percebi que ela carrega
partes minhas que talvez sejam mais verdadeiras do que qualquer biografia seria
capaz de explicar. Ela representa desejos, contradições, sombras, coragem,
sensualidade, liberdade, medo, ancestralidade, espiritualidade — e tudo aquilo
que muitas vezes aprendemos a esconder para continuar funcionando direito no
mundo.
Porque ser mulher já envolve uma quantidade absurda de papéis.
Há uma passagem de Barbie que traduz essa contradição de um jeito quase
doloroso de tão preciso: espera-se que uma mulher seja forte, mas não
intimidadora; bonita, mas sem parecer preocupada demais com isso; bem
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sucedida, mas disponível; cuidadora, mas independente; confiante, mas nunca
em excesso; capaz de sustentar todos ao redor e ainda fazer parecer que não está
cansada.
Vivemos tentando equilibrar expectativas que se contradizem entre si. E no
meio delas existe uma mulher. Uma pessoa. Uma história.
Eu conheço bem essa sensação.
A minha vida é uma loucura. Eu trabalho muito. Tenho minha casa, minha
família, meus pais, meu parceiro, meus cachorros, responsabilidades,
expectativas de outras pessoas, projetos, hobbies, sonhos, contas, compromissos
e uma mente que raramente decide ficar em silêncio. Existem muitos mundos
acontecendo ao mesmo tempo dentro de mim.
Selenya surgiu porque eu precisava de algum lugar onde todos eles pudessem
coexistir. Sem pedir desculpas. Sem precisar escolher.
Entre a mulher profissional e a mulher intuitiva.
Entre a responsável e a aventureira.
Entre aquela que constrói estratégias e aquela que acredita em símbolos,
luas, histórias e magia.
Entre quem ama a própria casa e quem sonha em desaparecer pela estrada
durante meses.
Entre quem conhece de perto as responsabilidades da vida adulta e quem
ainda sente uma curiosidade quase infantil diante do mundo.
Somos muitas.
E muito antes de nós, outras mulheres também foram muitas. Existe uma
ancestralidade feminina atravessando nossas escolhas, nossos medos, nossos
silêncios e até algumas dores que talvez nunca tenham começado em nós.
Carregamos histórias de mulheres que precisaram se calar. Que desejaram mais
do que puderam viver. Que foram julgadas por sentir demais, querer demais,
falar demais — ou simplesmente por existir de uma maneira diferente da
esperada.
Escrever Selenya também é, para mim, um pequeno ato de liberdade.
Eu já vivi coisas suficientes para escrever alguns outros livros. Algumas
maravilhosas. Outras completamente absurdas. Algumas que provavelmente
fariam alguém perguntar: isso aconteceu mesmo?
Aconteceu.
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Mas essas histórias ficam para outro momento. Por enquanto, contento-me
em viver algumas delas através de Selenya.
Este livro não pretende ensinar mulheres a serem mulheres. Deus me livre —
o mundo já passou tempo demais tentando fazer isso. Também não quero dizer
como alguém deveria amar, desejar, escolher, partir, permanecer, acreditar ou
existir.
Quero apenas contar uma história. Uma história sobre liberdade, identidade,
desejo, ancestralidade, escolhas e todas as versões que podem existir dentro de
uma mesma mulher.
Talvez você se reconheça muito nela. Talvez pouco. Talvez nada. E está tudo
bem — nenhuma coisa verdadeiramente pessoal consegue agradar a todo
mundo. Mas espero que ela toque algumas.
Se, em algum momento destas páginas, você encontrar uma única linha que
pareça ter sido escrita para algo que você já sentiu e nunca conseguiu explicar,
então este livro já terá valido a pena para mim.
Se Selenya fizer você lembrar de alguma versão sua que ficou esquecida pelo
caminho, melhor ainda. Se fizer você questionar alguma coisa, ótimo. Se
despertar vontade de viajar, amar, escrever, mudar, começar de novo, colocar
uma música alta, olhar para a lua ou simplesmente escolher um pouco mais a si
mesma, então ela cumpriu o que veio fazer.
Talvez todas nós carreguemos uma.
Uma mulher que observa da sombra. Que conhece nossos desejos. Que
lembra quem éramos antes de começarmos a cumprir tantas expectativas. Que
ainda sonha. Que ainda deseja. Que ainda pergunta:
E se eu pudesse simplesmente ser?
Este livro nasceu exatamente dessa pergunta.
E esta é apenas a primeira página
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