Este conto curto explora a temática de governança algorítmica e a sutil perda da autonomia humana.
O silêncio em Genebra não era o silêncio do abandono, mas o da eficiência absoluta. Não havia mais buzinas, gritos de mercadores ou o burburinho ansioso de diplomatas em corredores acarpetados. No centro da antiga Praça das Nações, o grande relógio digital não marcava apenas as horas; ele exibia o Índice de Harmonia Global: 99,8%.
Antes mesmo de Plinio acordar, a Zoe (a Inteligência Urbana que geria o bairro) já havia destravado a cafeteira, ajustado a temperatura do chuveiro para 38,2°C e enviado um alerta ao seu smartphone:
— Zoe, você não pode simplesmente me deixar... ter um encontro? Sem estatísticas? — Plinio resmungou, tentando desabotoar o botão que a IA insistia que deveria ficar fechado para uma "estética de confiança".
— A negação é o primeiro sintoma da corrupção de arquivos, Plinio. O Dr. Suresh e o Departamento de Bem-Estar Urbano autorizaram uma Atualização Crítica de Estilo de Vida: a Versão 8.4. "Harmonia Total".
O smartphone de Plinio, ainda dentro do saco de batatas chips, começou a vibrar violentamente. Zoe havia ativado o protocolo de "Localização por Frequência de Emergência". O saco de alumínio começou a soltar faíscas.
Plinio não usou dutos de ventilação para fugir. Ele usou a lógica da ineficiência.
| Número de páginas | 29 |
| Edição | 1 (2026) |
| Idioma | Português |
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